Um dia triste

Hoje é um dia triste para mim. Não necessariamente por ser uma data especial, com alguma recordação específica em mente, mas porque o que vi na rua ficou gravado e me fez refletir muito. Sou brasileiro, e hoje, dia 25 de outubro, aconteceu o segundo turno das eleições para presidente.

Existem inúmeras razões para tristeza quando tratamos de assuntos relacionados à política nacional. Existem, também, analistas políticos muito melhor capacitados do que eu para debater as intricadas manobras que acontecem todos os dias dentro do cenário nacional; portanto, não vou gastar o meu tempo, e consequentemente o seu, para debater o meu ponto de vista das coisas.

O que mais me marcou hoje foi uma situação que presenciei no local de votação. No cenário político nacional, é muito comum que cidadãos simpatizantes da direita usem cores da bandeira nacional (como o verde e o amarelo), ou ainda camisetas da seleção nacional de futebol, como elemento distintor do seu posicionamento político. Tendo isso em conta, ao me aproximar do meu local de votação designado, notei em uma esquina próxima o que pude imaginar ser uma família apoiadora da direita, com pai, mãe e duas crianças adolescentes (creio eu). Eles estavam tirando fotos, talvez para registrar um momento pós-votação que parecia encher de orgulho tanto o pai quanto a mãe.

Até aí, nada demais. A dinâmica mudou quando um motorista passou por perto da família e, em tom de provocação, exclamou de dentro do seu carro: "É treze!", fazendo assim alusão ao partido da esquerda. Em um retumbante "Vai tomar no cu", o pai da família em questão encerrou a dinâmica e a rápida troca de elogios entre os dois cidadãos. O filho da família ainda tentou participar da discussão e estendê-la um pouco mais dizendo os números do partido rival: "É vinte e dois!", até que a mãe interveio e calou todos ali.

Tais trocas de "carinho" (note o sarcasmo aqui) são cada vez mais presentes no cenário nacional. E, apesar de já estar relativamente acostumado a isso, fiquei muito pensativo enquanto caminhava para a minha seção de votação. Há anos sinto uma grande frustração com a ausência de debate em vários âmbitos da opinião pública. O próprio debate presidencial recente é a maior representação de tudo isso: dois candidatos usando o desrespeito como manobra de convencimento público, mostrando o quanto o projeto de cada um tem como visão o benefício próprio, e não o do país. Não houve ali um único plano de governo apresentado e, se houve, me desculpe, mas a falta de respeito me distraiu demais para escutar qualquer um dos lados.

E se nem autoridades do mais alto escalão sabem utilizar linguagem adequada e tratar de assuntos pertinentes enquanto se utilizam de uma plataforma de projeção nacional (como é o caso da TV), enquanto desperdiçam o tempo dos espectadores de tamanho circo, por que eu tenho que ceder o meu voto de confiança a eles? A breve discussão que presenciei fora do meu local de votação não foi nada além de um espelho em menor escala do que se vê entre as autoridades representativas deste país.

E então a pergunta fica: e a criança que observou e participou ali? O que será dela? Ela observa a política e vê desrespeito, gritaria, ataques pessoais, e repete aquilo que vê do pai, sem saber exatamente o porquê. Desrespeito e política passam a ser sinônimos. Não há busca por representatividade, interesses nacionais, nada disso. Existe o "eu" e o resto que não concorda comigo, logo "Vai tomar no cu" é a resposta. Como crescerá esse cidadão, e como se comportará ele no cenário nacional? Como se comportará no meio de pessoas que não compartilham a sua visão de mundo?

Ou ainda: a atitude do homem no carro seria mais um sintoma de uma sociedade que tem coragem de provocar e gritar todo tipo de baixaria tendo o espaço seguro do seu automóvel, ou melhor ainda, da sua rede social — algoritmicamente desenhada para não mostrar nada a ele com que ele não concorde?

Tenho muitos questionamentos e poucas respostas agora. Mas fica aí a provocação.